Sobre o Festival de Arte

Área pertencente ao antigo quilombo do Cabula, de verdadeira história de resistência negra, o Beiru é hoje um dos bairros mais populosos da cidade e um dos maiores do miolo central de Salvador, com mais de 50.000 habitantes. É nele que se situa a Pinacoteca do Beiru, localizada na via principal do bairro, na Rua Direta de Tancredo Neves, no fim da Estrada das Barreiras, em uma edificação de três pavimentos, que faz esquina com o beco da Rua Irmã Dulce, onde moram mais de 150 famílias entre as vielas que se cruzam por detrás e ao lado do prédio, construído nos anos 90. O espaço surge como ateliê de pintura do artista visual Anderson AC em 2015, e de lá pra cá sofre uma série de intervenções em suas estruturas, abrigando o fazer artístico mesmo em condições insalubres, até tornar-se apto para receber a comunidade e realizar as suas primeiras ações de aproximação às artes visuais e plásticas: o Pinacoteca do Beiru Festival de Arte.

A ideia da iniciativa nasce durante os anos em que Anderson começa a pintar no local e percebe o quanto muitos moradores que passam diariamente na porta do ateliê, ficavam curiosos ao vê-lo pintar aqueles primeiros trabalhos em telas retalhadas nas paredes ainda sem reboco usadas como suporte, onde apareciam imagens das crianças negras, angolanas, registradas em viagem do artista à Luanda anos antes.  A identificação imediata dos moradores do Beiru com aquelas imagens e com o fazer artístico marcam o início dessa ponte transatlântica, o espelhamento de realidades e rostos parecidos numa mesma verdade contada em duas margens do Atlântico.

O movimento de curiosidade, de parar para observar o artista pintar, de se ver naquelas obras de arte e de querer entender melhor o que acontecia no prédio, deu início aos primeiros vínculos com moradores das redondezas, dos quais surgem os primeiros registros fotográficos do artista com essas pessoas que passaram a frequentar o lugar, e que hoje contam a história do Beiru. A ideia de transformar a curiosidade em algo maior, se desenvolve na forma de um festival de artes, que transformou em realidade o acesso de mais pessoas às artes visuais, convidando, formando turma e trazendo para dentro cerca de 40 moradores participando das atividades da fotografia/modelagem, oficinas de pintura e exposição montada no local, contendo os resultados de tudo.

O Pinacoteca do Beiru Festival de Arte teve início em fevereiro de 2021, quando no espaço é montado o estúdio fotográfico no primeiro andar, onde Anderson recebeu os moradores interessados e agendados para a sessão de fotografia, atividade que marca o início da Pinacoteca do Beiru como local de trocas de saberes e prática artística. O processo de ver novas pessoas entrando no espaço também nos aproximou de cada novo visitante, que compartilhou suas histórias de vida, sonhos, ideias, subjetividades, e relação disso tudo com o espaço em que vive.

Alguns dos participantes, quase todos nascidos e criados no Beiru, se interessaram também pelas oficinas de pintura, que foram ministradas por Anderson nos meses de abril e maio deste ano. Duas turmas de dez alunos foram formadas e divididas entre crianças e jovens/adultos, que tiveram uma semana inteira de aulas, com todos os cuidados de prevenção contra o COVID 19, e realizaram estudos sobre a história da arte, sobre a teoria das cores, técnicas de pinturas, produção artística livre, tudo de forma totalmente gratuita e com todo material cedido pelo projeto. Para as crianças, um ponto de respiro, um lugar fora dos seus contextos cotidianos, onde puderam fazer algo diferente e lúdico, como assistir filmes, conhecer um pouco da história da arte, ouvir histórias, desenhar e pintar com aporte de um pintor “de verdade”. Tudo isso muito próximo de suas casas, em um ambiente preparado com muito afeto e cuidado para recebê-las. Como resultado das aulas de introdução a processos artísticos e pintura, cada aluno realizou sua primeira obra de arte em tela, que também será apresentada ao mundo.

Das fotografias realizadas ao longo dos anos trabalhando no local, dos registros de convidados que o artista já possuía em mente, e dos interessados em ter sua imagem inspirando uma obra de arte, somaram-se 20 registros, 20 histórias contadas através dessas imagens, produzidas por Anderson AC e que agora são apresentadas na mostra “E o Sol é Para todos?”, que conta também com trabalhos resultantes das oficinas de pintura.

Segundo Anderson, o tema da exposição “traz uma reflexão das questões ligadas à meritocracia e ao fato que vivemos todos num único planeta, dentro das mesmas condições físicas e humanas, mas não sociais. Todos precisamos igualmente de água, de oxigênio,  de alimento, e se sol nasce para todos, a sombra também deveria ser, respeitando o processo de harmonia, comunhão e equilíbrio que não chega para a grande maioria das pessoas que moram nas grandes favelas”.

A mostra “E o Sol é Todos?” acontece no piso térreo do pinacoteca, preparado como uma verdadeira galeria de arte e espaço expositivo capaz de abrigar as mais diversas linguagens. Conta com a simplicidade que a arquitetura disforme das edificações da periferia nos permitiu, mas com o mesmo cuidado de uma expografia nos moldes dos grandes centros de arte. Pode ser visitada virtualmente através de tour virtual no site e foi presencialmente para a comunidade e visitantes no dia 14 de agosto, ficando em cartaz por um longo período, uma vez que visitas presenciais e guiadas estão sendo feitas com agendamento prévio nos canais de comunicação e redes sociais do projeto.

A potência da existência de um centro de artes e compartilhamento de saberes no meio do Beiru, dentro da lógica de procurar e achar os interessados em arte e também artistas, trazendo-os para perto, formando turmas e oferecendo o espaço para desenvolverem sua arte, se dá em cada toque nos livros, em cada pincelada numa tela que expande para uma obra sua existência no mundo, na troca, na educação e na consciência do ser protagonista de suas histórias. Esses são os  métodos capazes de pulverizar as grandes desigualdades e abismos sociais e a Pinacoteca pretende trabalhar cada vez mais nesse urgente e necessário propósito.

O Pinacoteca do Beiru Festival de Arte tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.